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Governança para startups: o que fazer (e o que evitar) desde o momento zero de sua empresa

No universo das startups, há histórias incríveis de empreendedores que dedicaram todos os seus esforços e recursos para criar soluções e produtos inovadores que mudaram o mercado e, consequentemente, se transformaram em empresas com valor de mercado na faixa das dezenas, ou mesmo centenas, de milhões.

Mas há também um outro universo, que corresponde à maioria das startups, em que os empreendedores lutam não apenas para desenvolver suas tecnologias mas também para ter a “casa em ordem” em termos financeiros, contábeis e de governança – evitando assim problemas como desentendimento entre os sócios, prejuízos com tributação indevida e falta de transparência na hora de buscar um aporte de investidor.

Quando, portanto, seria o momento ideal para os empreendedores se dedicarem a questões pouco abordadas nos debates sobre startups, como governança corporativa e planejamento contábil/financeiro?

Para empreendedores, investidores e profissionais experientes, o momento ideal é o momento zero da criação da startup, quando os sócios decidem efetivamente iniciar um projeto de empresa em conjunto.

Em 2019, o Instituto Brasileiro de Governança Corporaiva (IBGC) lançou um caderno voltado a startups e scale-ups em que sugere qual é o nível ideal de governança para cada momento do desenvolvimento das novas empresas inovadoras, na proporção de suas necessidades. Na definição do IBGC, as startups em geral se dividem em quatro momentos de maturidade de negócios: a ideação (desenvolvimento da ideia e o entendimento do problema), a validação (quando o produto, mercado e modelo de negócio estão sendo testados), a tração (quando o produto já está validado pelo mercado) e a fase de escala (crescimento em ritmo acelerado, com foco na expansão geográfica, de mercado ou produtos).

Em uma visão mais prática deste mercado, contudo, as startups se dividem em três momentos, como define Rafael Assunção, experiente empreendedor e investidor que já mentorou mais de 300 negócios no país:

“A primeira fase de uma startup é aquela em que ela é formada apenas pelos sócios, e o contrato social espelha essa realidade.

Num segundo momento, quando ela já está no mercado e faturando, entram os investidores anjo e as aceleradoras – aí a empresa não é só dos sócios. Tem gente de fora para quem os empreendedores precisam prestar contas.

E por fim, há a fase em que a startup está crescendo em escala e está pronta para um comprador bater na porta com uma oferta”, detalha.

Na visão dele, contar com uma cultura de governança desde a primeira fase é uma maneira de se “aculturar” e facilitar o trabalho tanto dos próprios empreendedores ao longo da jornada de crescimento da empresa quanto dos investidores/fundos/aceleradoras que forem aportar recursos e das companhias que possam se interessar na aquisição do negócio.

Para Ismael Silva, empreendedor e cofundador da Softcon Contabilidade, atualmente é possível ter esse nível de governança de acordo com o estágio de maturidade de cada startup “desde as fases iniciais, de forma simples e fácil, com baixo custo e sem tirar o foco dos founders no core business da empresa, basta ter o apoio de profissionais capacitados e o uso de ferramentas e plataformas adequadas”

Um exemplo de “casa em ordem” foi o que fez a Hiper, startup de Brusque negociada no início de 2019 para a Linx que, por ter investido em um departamento de Controladoria (que contava com cinco funcionários à época) e não ter “deixado esqueletos no armário” – como definiu Tiago Vailati, um de seus fundadores – concluiu o processo de aquisição (do memorando de entendimento à due dilligence e a efetiva assinatura do contrato) em pouco mais de três meses.

Muitas vezes, comenta Ismael, a negociação entre as partes pode se arrastar por muito mais tempo, levando até um ano, em casos nos quais as startups não contam com um processo de governança estruturada – sem falar de riscos do negócio não sair em função da falta de transparência e outros problemas.

Mas até chegar a este ponto, muitas questões precisam ser definidas.

A PRIMEIRA DELAS: QUANDO É A HORA DE FORMALIZAR UMA STARTUP? 

“Antes de tudo, é preciso saber se a ideia está madura, se é o momento certo para abrir uma empresa. Já sabe como monetizar o projeto? Se for algo muito inicial, é melhor buscar outras alternativas para validar o MVP (mínimo produto viável / protótipo), como iniciar o negócio como um microempreendedor individual. Se já estiver mais avançado e houver mais de um sócio, é fundamental ter um entendimento entre todos sobre o nível de dedicação, responsabilidade e funções de cada um para este projeto”, avalia Ismael.

Ele lembra que um dos erros mais comuns quando se começa um negócio é errar no enquadramento da atividade (código CNAE), pois isso pode gerar um impacto tributário negativo logo de cara. “O primeiro passo é entender a atividade a que se propõe a startup, conhecer de fato o negócio, qual a dor que ele resolve, o que resolve e adequar o objeto aos cnaes devidos. A partir disso passamos a expectativa de regime tributário – aqui não há regra, pode ser Simples Nacional, lucro presumido, lucro real, depende da projeção.

Muitas startups, ele reforça, deixam de atingir o seu potencial por razões de mercado, regulamentação e econômicas, entre outras. “Mas um dos fatores preponderantes para isso, por incrível que pareça, é o desalinhamento entre os sócios em temas estratégicos neste momento, muitas vezes sem essa consciência, a governança passa a ser um grande desafio para os empreendedores”.

Os empreendedores costumam ter um plano de negócio estruturado mas não sabem qual será o peso tributário – e isso vai impactar diretamente no preço do serviço prestado. “O que recomendamos é: me passa, num primeiro momento, uma projeção mensal de faturamento, gastos com folha de pagamento e lucratividade da forma mais realista possível, e a partir disso podemos ajudar a definir qual é a melhor forma de enquadramento”, diz o cofundador da Softcon.

Para Luís Fernando Garcia, fundador do Conversa Prática, programa de educação para empreendedores, o momento certo para abrir/registrar uma startup “é quando os fundadores têm certeza de como vão gerar receita e quando isso vai acontecer – de preferência após a primeira venda ou quando tiver negociações bem adiantadas”.

Ele também destaca a importância de definir a atividade econômica e o regime tributário mais adequado. “Há oito anos, quando fundei minha primeira empresa, foi muito complicado. Na época, ela foi enquadrada como lucro presumido e no terceiro ano, pagamos R$ 30 mil reais a mais de impostos do que se tivéssemos no Simples Nacional”, lembra. “Além disso, foi necessário alterar o contrato social para alteração de sócios e de atividades econômicas, que levou mais dinheiro embora do caixa da empresa. Isso tudo prejudica o dia a dia, pois são recursos que você está deixando de investir no negócio”.

O QUE FAZER DESDE O MOMENTO ZERO

Se você é um empreendedor em fase inicial de sua startup, ou seja, ela representa apenas o esforço/trabalho dos sócios, fique atento se a empresa já tem definidas as seguintes questões:

[  ] contrato social com papéis e responsabilidades dos sócios;

[  ] formas de contribuição, remuneração e futura participação na empresa, além de opções de saída e descontinuidade;

[  ] garantia da titularidade da propriedade intelectual da sociedade;

[  ] alinhamento entre os sócios: definição do processo de tomada de decisão e construção de consenso;

[  ] níveis de controle financeiro (bens, entradas e saídas de capital);

Nesta fase inicial, o alinhamentos entre os sócios é fundamental e o acordo de fundadores deve estar no papel.

Caso tenha marcado todos os itens acima, fique atento a nosso próximo conteúdo, que vai abordar os passos da Jornada de Governança para as startups que estão maduras para buscar tração e recursos externos a partir de um investidor-anjo ou de um programa de aceleração.

* Fonte: Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), 2019

Conteúdo originalmente publicado no Portal SC Inovahttp://bit.ly/2l2DeMq


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