O professor Jaideep Prabhu, diretor do Centre for India & Global Business da Universidade de Cambridge, trouxe a Florianópolis uma perspectiva sobre o desenvolvimento tecnológico: a criação de soluções de baixo custo, ou “inovação frugal”. Na programação da semana (16 a 18), ele palestrou em um Centro de Inovação da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE) e no III Seminário Internacional de Inovações Frugais, na UniSul – Campus Continente. Em ambas as falas, abordou como a criatividade e a gestão de recursos limitados podem ser a chave para enfrentar desafios complexos.
Prabhu iniciou sua carreira estudando grandes corporações ocidentais em setores como farmacêutico e bancário. Por volta de 2007, começou a focar em economias emergentes como a Índia, seu país natal, onde percebeu que a abordagem dos inovadores era diferente. Eles se destacavam por sua frugalidade e capacidade de fazer mais com menos, transformando as restrições em inspiração para novas soluções.
“As soluções são muito simples, o que ajuda a economizar, mas também as torna fáceis de serem adotadas e mantidas. Há muito pensamento lateral e improvisação. Se eles veem uma montanha que não podem escalar, tentarão encontrar um caminho ao redor dela. A adversidade que enfrentam, as restrições de recursos, são, na verdade, uma inspiração para a criatividade”, afirmou.
O professor esteve em Florianópolis para o Seminário Internacional de Inovações Frugais, evento que, de 16 a 18 de setembro, reuniu pesquisadores, estudantes, professores, empreendedores e representantes de órgãos públicos e privados. O objetivo foi discutir como soluções simples, econômicas e eficientes podem promover inclusão e desenvolvimento sustentável. Por meio de exemplos práticos, o seminário aborda como a inovação frugal não apenas reduz custos, mas democratiza o acesso a tecnologias essenciais, contribuindo para a melhoria de qualidade de vida. O evento foi promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) da UniSul, por meio do Centro de Desenvolvimento Sustentável – Grupo de Pesquisa em Eficiência Energética e Sustentabilidade (Greens).
Em uma programação paralela, pela manhã, no CIA Primavera, Prabhu conversou com empreendedores associados à ACATE e pesquisadores sobre a importância de pensar a tecnologia não apenas como um avanço de ponta, mas como uma ferramenta acessível a todos. O especialista, que é referência em inovação e negócios internacionais, apresentou aos empresários de startups da Vertical Smart Cities uma visão prática da inovação frugal, destacando casos e estratégias que têm transformado economias emergentes.
Ele lembrou de exemplos como o de uma empresa no Quênia, que não precisou criar ativos novos para inovar. A companhia usou o sistema de envios de mensagens já disponíveis nos telefones celulares para criar uma plataforma de micropagamentos. Esse sistema, segundo ele, solucionou problemas de famílias que precisavam usar pequenas quantias diárias em dinheiro no comércio local, e permitiu que milhões de pessoas passassem a ter acesso a pagamentos digitais, criando base para outros serviços.
Em sua palestra, ele defendeu a necessidade de uma “IA frugal”, adaptada a contextos locais, acessível em diferentes idiomas e com foco em setores essenciais, como saúde, educação e agricultura. O professor também enfatizou a mudança cultural necessária em governos e instituições e mostrou como grandes empresas podem adotar a inovação frugal para unir sustentabilidade, redução de custos e envolvimento do consumidor. Para o especialista, o futuro de economias emergentes, como Índia e Brasil, dependerá de modelos de negócio de baixo custo, margens finas e alto volume, com produtos e serviços que sejam ao mesmo tempo acessíveis e aspiracionais.
Potencial para gerar novas tecnologias
Professora do Programa de Pós-Graduação em Administração/UniSul (PPGA/UniSul) e organizadora do seminário, Ana Regina Aguiar Dutra, destacou a importância da visita para a cidade. “Tudo isso está acontecendo a partir de um projeto que aprovamos com o CNPq, para um projeto de inovação frugal aqui em Santa Catarina. Tivemos a oportunidade de trazer o professor e pensamos, então, por que não compartilhar isso com as instituições setoriais para fortalecer a inovação frugal em termos de escalabilidade?”, pontuou.
Thais Nahas, diretora da Vertical de Smart Cities da ACATE, reforçou a relevância da parceria entre academia e mercado. “Essa oportunidade mostra como é forte um ecossistema de inovação, onde a universidade traz um convidado muito importante, e a gente consegue compartilhar esse conhecimento com os empresários. Essa troca é sempre muito bem-vinda e importante”, ressaltou.
O potencial da inovação frugal não apenas como uma abordagem acadêmica, mas como um caminho prático para construir um futuro mais inclusivo e sustentável, faz muito sentido para o professor Baltazar de Andrade Guerra, coordenador do PPGA/UniSul. “As oportunidades para cooperação são muito grandes. Por exemplo, estamos falando agora da possibilidade de fazermos um estudo comparativo entre o PIX e um modelo similar que existe na Índia. Poderemos trocar tecnologias, conhecimentos e fortalecer uma rede de parcerias, não só entre as nossas universidades, a UniSul e a Universidade de Cambridge, mas também com o setor empresarial, contribuindo para o desenvolvimento regional do nosso Estado e para o progresso e a inovação”, concluiu.
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