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23/Jul/2021

Programas de formação de talentos em tecnologia geram novas oportunidades a jovens e profissionais em Santa Catarina

Novas iniciativas, como o DEVinHouse, apontam para um caminho de “jornada de formação”, de adolescentes a profissionais em transição de carreira. Hoje, há 4,5 mil vagas de trabalho à espera de talentos nas empresas de TI em Santa Catarina

O isolamento social imposto pela pandemia mudou a rotina e os planos do administrador e músico Michael Nascimento. Como milhões de brasileiros que ficaram sem renda, ele perdeu os shows em que tocava bateria e decidiu usar o tempo em casa para estudar e buscar uma recolocação profissional.

Natural de São Paulo, mas vivendo em Joinville (SC) há anos, ele já tinha alguma fluência com o universo de TI: desde os 13, brincava com montagem e manutenção de redes, e recentemente tinha desenvolvido um site de música por conta própria. Ao sair de uma empresa em 2019, decidiu que a programação seria um plano B para a carreira e começou a fazer alguns cursos de formação em tecnologia, enquanto mantinha alguns shows na agenda de trabalho.

Mas a pandemia acelerou tudo. “Fiquei completamente sem ter o que fazer e preenchi o tempo livre estudando até 14 horas por dia. Eu estava muito comprometido e, quanto mais estudava, mais me interessava por tecnologia”, lembra. Foi quando surgiu a oportunidade de participar do DEVinHouse, um programa de formação de desenvolvedores criado em parceria entre o SENAI/SC e a Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE).

Antes mesmo do curso terminar, Michael já estava efetivado como um dos novos “devs” da Softplan, uma das maiores empresas de TI do Sul do país e que patrocinou a turma piloto. “Em comparação com outros bons cursos rápidos para desenvolvedores, o DEVinHouse foi o que mais me agregou conhecimento. Teve muita troca, o convívio com alunos e professores ajudou muito no meu desenvolvimento – o resultado superou com folga minhas expectativas”.

Das baquetas para os códigos: músico Michael Nascimento focou nos estudos durante a pandemia e foi contratado durante participação em programa de formação de desenvolvedores. / Foto: arquivo pessoal

A mudança de carreira também estava nos planos de Emanuelle Besckow Figueiredo, professora auxiliar concursada que mora em Biguaçu, na Grande Florianópolis. Há 12 anos na carreira de educação, ela sentia a necessidade de ir além do que a carreira estável proporcionava – mesmo reconhecendo os benefícios e pontos positivos, especialmente para uma mãe de duas filhas.

Antes da pandemia, ela começou a participar de grupos de mulheres interessadas em programação, como o PyLadies, e se identificou vendo outras pessoas em um estágio de vida semelhante. Em 2019, começou um curso de tecnólogo em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e, no início de 2020, pediu licença da escola para se dedicar à conclusão do curso e a uma futura vaga de estágio no setor. Logo em seguida, veio a pandemia e os planos tiveram que mudar.

Emanuelle também foi uma das primeiras alunas do DEVin House e, como Michael, hoje é uma das quase 2.000 pessoas no time da Softplan. Foi contratada no início de junho, como Software Developer Trainee.

O resultado do programa surpreendeu positivamente a empresa patrocinadora desta primeira turma. “Nossa meta era contratar 10 alunos, em uma turma de 40 pessoas, que tivessem condições de iniciar a carreira como programadores e acabamos contratando 12 dos treinandos. E outros já foram contratados por outras empresas do mercado”, conta Moacir Marafon, cofundador e hoje membro do Conselho de Administração da Softplan.

“Esse modelo em que a empresa participa desde a estruturação da grade curricular, disponibilizando mentores durante o curso para que os alunos tenham a oportunidade de exercitar na prática os conhecimentos adquiridos e resolvendo problemas reais, é a melhor forma de manter o engajamento dos alunos, reduzindo desistências e contribuindo para que já cheguem na empresa “jogando””, conclui o empresário, que também é vice-presidente de Talentos da ACATE.

Moacir Marafon, VP de Talentos da ACATE e cofundador da Softplan: empresa patrocinadora do primeiro DEVinHouse contratou 12 alunos de uma turma com 40 participantes. / Foto: Divulgação ACATE

Até o momento, foram abertas cinco turmas do DEVinHouse, com participação de empresas do ecossistema de tecnologia local, como ContaZAP, Teltec Solutions, Bry, Involves, PariPassu, Pixeon, Way2, Paradigma, além da Softplan. E há mais empresas interessadas em patrocinar futuras turmas.

Neste ano, pelo menos 300 pessoas devem participar dos cursos, que terão turmas em Blumenau e Joinville – além de um forte interesse de outras regiões, do Sul ao Oeste de Santa Catarina. Neste programa, realizado em formato síncrono, a meta é formar 300 alunos. No ano que vem, 800 e cerca de 2 mil em 2023.

Iniciativas demandam apoio social 

Para o presidente da ACATE, Iomani Engelmann, “o programa é uma excelente oportunidade para as empresas de tecnologia colaborarem com a formação dos profissionais que elas mais precisam, sabendo que eles terão uma excelente formação. Estudos já apontam que teremos um déficit de 100 mil profissionais no setor nos próximos quatro anos se não ampliarmos iniciativas como essa”, disse o presidente da ACATE.

“Hoje temos uma grande dicotomia: por um lado, uma massa de pessoas que não são empregáveis por não ter uma formação ou competências mínimas, por outro nós vemos milhares de vagas abertas que não são preenchidas – um problema seríssimo”, comenta o empresário Daniel Leipnitz, membro do Conselho Deliberativo da ACATE e ex-presidente.

No início deste ano, ele lançou o livro “Ponte para a Inovação” em conjunto com o jornalista Rodrigo Lóssio, um guia prático para a construção de ecossistemas inovadores com base no case de Santa Catarina. Todos os recursos das vendas do livro – que esgotou os 2,6 mil exemplares da primeira edição – foram revertidos em bolsas para alunos de baixa renda participarem do programa e buscarem colocação no mercado de trabalho. Até o momento, foram arrecadados R$ 92 mil – e uma segunda edição deve sair em breve.

Como lembra Daniel, “chegamos a fazer uma parceria com uma entidade social, mas grande parte dos jovens atendidos não tinha condições, conhecimento em matemática e raciocínio lógico, para fazer as provas e tentar uma vaga no curso”, resultado de um ensino fundamental e médio precários. O risco a médio e longo prazo, alerta, “é que as empresas que ofertam vagas na região migrem para outras cidades que tenham essa disponibilidade de pessoal”.

Em Blumenau, a carência de mão de obra especializada motivou a criação, há 15 anos, de um dos mais longevos programas de capacitação em tecnologia no estado. O Entra21 é um projeto gratuito que já formou 5 mil jovens e adultos entre 16 e 29 anos, voltado a moradores da região, além de pessoas com deficiência, imigrantes e pessoas de outras faixas etárias que querem se reposicionar na área de TI.

“estamos capacitando hoje para reduzir o déficit de amanhã”, diz Henrique Bilbao, VP de Marketing da ACATE e presidente do Blusoft, entidade que gerencia o Entra21, em Blumenau. / Foto: Leo Laps

“Nos municípios do Vale do Itajaí há 15 mil pessoas trabalhando no setor de tecnologia – ou seja, o Entra21 formou o equivalente a um terço da força de trabalho atual de nossa região”, comenta Henrique Bilbao, presidente do Blusoft, entidade responsável pela execução do programa e polo regional da ACATE.

Tradicional berço de empresas de software, Blumenau se tornou destino nos últimos anos de grandes corporações que se instalam na região justamente pela capacidade de responder a esta demanda. “Uma multinacional se instalou aqui com perspectiva de ter 3 mil colaboradores nos próximos anos – já conta com 1,5 mil pessoas. Se não tivéssemos condição de formar uma parte do que é necessário, eles certamente já teriam deixado a cidade. Seria um impacto gigantesco”, comenta Henrique, que também é vice-presidente de Marketing da ACATE.

Nos próximos meses, o Blusoft deve anunciar novos programas de formação profissional. “O desafio agora é aumentar a base. Os egressos saem com conhecimento de tecnologia, mas há um caminho a trilhar até estarem prontos para as empresas. Assim como no começo do Entra21, estamos capacitando hoje para reduzir o déficit de amanhã”, ressalta.

Demanda de talentos em empresas de tecnologia em Santa Catarina, segundo mapeamento da ACATE (2021).

Jornada de formação de profissionais quer incluir 60 mil alunos e interessados até 2023

Mesmo com uma metodologia alinhada à demanda do mercado, o SENAI/SC notou que há um universo muito maior para ser capacitado do que apenas aquele perfil de profissionais que participam do DEVinHouse.

“Muita gente ficou de fora do funil de pré-seleção e, dada a enorme demanda por desenvolvedores, começamos a pensar em uma jornada completa para atração e formação deste perfil de profissional. Mas com a mesma solução que inclua conhecimento técnico, habilitação, aprendizagem direta e aculturamento com o ambiente das empresas”, comenta Fabrizio Pereira, diretor de Educação e Tecnologia do Senai/SC.

Segundo ele, serão quatro etapas de um “funil de formação” que pretende atingir, até 2023, pelo menos 60 mil pessoas, entre alunos do ensino público, estudantes de outros cursos técnicos do Sistema S e profissionais que buscam migração de carreira e novas competências.

A enorme demanda por desenvolvedores levou o SENAI a pensar em uma jornada completa para atração e formação de profissionais. / Foto: Filippe Scott

A primeira etapa é o programa Hello, voltado a estudantes entre 13 e 17 anos, que estejam no ensino médio ou em cursos de aprendizagem industrial. “É um programa para despertar talentos”, explica Fabrizio. A primeira turma já envolveu 400 alunos e a expectativa é atender 45 mil jovens até 2023, comenta o diretor. Entre outras iniciativas estão o DEVStart, com até 200 horas-aula em modelo assíncrono (sem a necessidade de uma interação em tempo real), que pode envolver cerca de 11 mil participantes nos próximos dois anos; e o DEVExpert, voltado à formação continuada de profissionais, com o qual o SENAI estima um público de mais de 2 mil alunos.

Com a experiência de quem ajudou a formular outros programas de formação em TI no passado, como o Geração Tec, o vice-presidente de Talentos da ACATE destaca que o setor de tecnologia em Santa Catarina tem atualmente 4.561 vagas abertas. No ano que vem, serão pelo menos 5,3 mil novos postos, dos quais metade são oportunidades de trabalho para desenvolvedores – e em 2023, a perspectiva é de 6.687 vagas abertas.

Em função desse cenário, é necessário ampliar ao máximo a oferta de cursos de formação profissional, comenta Moacir Marafon. “O Programa Jovem Programador, coordenado pelo Sindicato Patronal das Empresas de TI de SC (SEPROSC), com o SENAC/SC como executor e a ACATE e empresas em parceria, prevê 635 vagas ainda em 2021 com turmas em 11 cidades do Estado. Para o ano que vem, estima-se incluir mais cidades para chegar à meta de 1 mil vagas, com aumentos gradativos até chegarmos a 2,5 mil vagas por ano”.

Outro exemplo é o Prototipando a Quebrada, projeto de educação tecnológica e profissional criado em 2018 e que atua em rede nas periferias e comunidades da Grande Florianópolis. O programa envolve oficinas de TI – robótica, jogos digitais e animação – para crianças e adolescentes em um modelo “que une educação disruptiva e descentralizada, ampliação do entendimento tecnológico e encaminhamento profissional. Queremos diversificar a área”, como define o empreendedor e idealizador Jefferson Lima. O Prototipando a Quebrada tem turmas ativas em Palhoça e deve iniciar outra turma neste ano, no Norte da Ilha.

No dia 26 de julho, a ACATE vai lançar um mapeamento de vagas do setor de TI em Santa Catarina, com projeções para os próximos anos e os cargos e funções mais procurados pelas empresas. “Há outros sendo concebidos, inclusive com a participação do Governo do Estado de SC para que possamos atender a demanda atual e crescente por talento com perfil tecnológico”, conclui Marafon.

*Fonte: SC Inova